Dispostas sobre os telhados, placas como estas captam a energia do sol e com ela esquentam a água de chuveiros e pias. O sistema é simples e você pode tê-lo em sua casa - o investimento inicial logo retornará em contas de luz menos salgadas.

Em 2001, 5% dos brasileiros poderão ficar no escuro. O risco de que isso aconteça é de 12%, alerta a Eletrobrás. Para suprir o consumo crescente, o país precisaria aumentar a produção anual em 4000 megawatts. Mas s- cumpre a metade dessa meta, e a um preço altíssimo. Enquanto o kW gerado por 49 termoelétricas em construção sairá por US$ 1000,00, bastariam US$ 255,00 para produzir a mesma quantidade aproveitando o sol. Econômica, ecológica e farta, a energia solar poderia atenuar a crise energética. Porém, em quase três décadas, os esforços para popularizar o seu uso contabilizam apenas 400.000 moradias desfrutando do sistema, segundo a Associação Brasileira de Refrigeração, Ar Condicionado, Ventilação e Aquecimento (Abrava).

POR QUE USAR A ENERGIA SOLAR?

Ao substituir o chuveiro elétrico, ela diminui, em média, 35% do gasto de luz numa casa, afirma Luís Augusto Mazzon, diretor-presidente da Soletrol. Mais números? A energia elétrica usada no aquecimento de água responde por 6% do consumo nacional, o dobro do destinado à iluminação pública. Em tempos de ameaça de blecaute e preocupação com o esgotamento das reservas energéticas, a economia, além de poupar o nosso bolso, preserva o meio ambiente (veja quadro abaixo). A abundancia é outro ponto favorável.

Por exemplo: a cidade de Petrolina, PE, se compara à africana Dongola, no Sudão, lugar do planeta onde o sol incide mais intensamente (maior radiação). Os dados, levantados pelo Grupo de Pesquisas em Fontes Alternativas de Energia da Universidade Federal de Pernambuco, são animadores para todo o Brasil. "Por que não desfrutar de mais esse benefício oferecido pela natureza?", questiona Marcelo Romero, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP).

ELA SUBSTITUI A ELETRICIDADE?

Não. As placas coletoras servem exclusivamente ao aquecimento da água. Existe, sim, outro tipo de equipamento que transforma a energia solar em elétrica (nesse caso, chamada fotovoltaica), mas é uma tecnologia ainda cara, segundo a física Elisabeth Marques Duarte Pereira, do Grupo de Estudos em Energia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, o Green Solar.

QUAIS AS VANTAGENS?

Além de reduzir em média 35% da conta de luz, um bom equipamento não sai caro: ele se paga entre seis meses e dois anos, dependendo do tamanho. E dura cerca de quinze anos. Quase não requer manutenção, apenas a limpeza semestral das placas - ela é feita com água e sabão no início ou fim do dia e não necessita de mão-de-obra especializada. A exemplo do que ocorre com os demais sistemas de aquecimento central, a temperatura não varia com a vazão. Por fim, o aquecedor solar não depende de concessionárias ou distribuidoras de energia nem sofre tributação. "Quem constrói hoje e não planeja a sua instalação está retrocedendo. Seria como usar tubos de ferro galvanizado no lugar de PVC", compara o engenheiro Ricardo Gerçossimo, gerente técnico da empresa mineira Pantho.

E AS DESVANTAGENS?

Os problemas mais comuns ocorrem por erros na instalação ou por falhas na distribuição da água quente no projeto hidráulico. Existe, porém, um vilão que pode atacar até os mais precavidos - a geada. Neste inverno, o termômetro foi lá embaixo, congelando a água que estava dentro dos tubos das placas coletoras. A conseqüência foi a mesma de esquecer uma garrafa de vinho no congelador: os tubos estouraram.

"Com o frio intenso de junho, a água não esquentava. Por cinco vezes o sistema elétrico auxiliar entrou em ação. Descobri que os canos de uma das placas tinham estourado. Comprei uma nova e pus uma válvula anticongelamento. Não me arrependo desses gastos."

Celion Roberto de Almeida Araújo,
 aviador aposentado, Itaipava, RJ

Todo esse frio provocou a quebra de aquecedores até em cidades quentes, como Goiânia, GO, e Belo Horizonte, MG. Tamanho estrago acontecera pela última vez em 1994, principalmente no Sudeste e no Sul. Para evitar o inconveniente, pode-se instalar uma válvula anticongelamento. No inverno de 2000, no entanto, até alguns equipamentos que contavam com ela sucumbiram, levando os proprietários a consertar ou substituir as placas. Os fabricantes estudam um sistema de prevenção ideal, que seria isolar as placas coletoras, liberando a água contida nelas e não permitindo seu reabastecimento durante toda a geada. Em países extremamente frios, o problema não acontece, pois os aquecedores contam com um sistema à prova de falhas. "É uma solução muito cara, que não se justifica em um país tropical, com risco mínimo de congelamento", explica Rodrigo Trindade, consultor da Abrava e diretor da Agência Energia, de Belo Horizonte.

Como funciona o equipamento

Siga os passos e entenda como o sistema chamado termossifão aquece a água de uma casa.

1 - A água que vem da caixa abastece o boiler (reservatório com isolamento térmico).

2 - Do boiler, ela segue para a serpentina que passa dentro das placas coletoras, colocadas sobre o telhado.

3 - Conforme a radiação solar esquenta o líquido dos tubos, a água quente sobe, voltando ao boiler, onde fica armazenada na parte superior.

4 - Quando alguém abre o chuveiro, ela é conduzida pela tubulação. O mesmo acontece com torneiras de pias e banheiras.

5 - À medida que água quente é usada, a mais fria vai para as placas. O movimento é contínuo, garantindo que a temperatura se mantenha alta.


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SISTEMA AUXILIAR TRABALHA EM DIAS SEM SOL

Dentro do boiler existe uma resistência ligada a um termostato. Quando ele indica que a água está fria (abaixo de 40º C), ela começa a funcionar. "Acione o disjuntor desse sistema somente quando a água não estiver quente o bastante, o que acontece cerca de dez dias por ano, mesmo nos lugares mais frios", diz Luiz Antônio dos Santos Pinto, vice-presidente da empresa paulista Transen. Se deixá-lo acionado continuamente, o sistema poderá ligar inutilmente, elevando o gasto com energia elétrica.

 

CONTRA GEADAS, VÁLVULA ANTICONGELAMENTO

Há dois tipos principais, um termomecânico e outro elétrico. Os dois drenam a água fria dos tubos, impedindo que congele. O boiler, então, libera água quente para preenchê-los. A diferença entre os modelos está na forma de ativação:a válvula termomecânica se abre quando a temperatura vai a 4º C ou 5º C e provoca a contração de uma resina interna. Já a elétrica é acionada por um termostato - para isso, é preciso que o morador ligue o disjuntor do aparelho.

A ÁGUA FICA QUENTE MESMO NO INVERNO?

Em muitas regiões do país, o inverno é bastante ensolarado, e o que importa para o aquecimento é a radiação solar e não a temperatura. No entanto, em dias chuvosos ou muito nublados, a água pode não alcançar a temperatura ideal - entre 38º C e 40º C, para banho, e entre 50 ºC e 60º C, para desengordurar a louça. Nessa hora, entra em ação o sistema auxiliar de aquecimento, geralmente elétrico.

O EQUIPAMENTO FUNCIONA EM REGIÕES FRIAS?

Todo o Brasil recebe insolação suficiente para que compense investir nesse sistema. O que varia é o aproveitamento dele, afirma Luciano Pascon, gerente de marketing da Soletrol, de São Manuel, SP. "Nos lugares com muitos dias nublados ou chuvosos no inverno, como o Sul, o sistema elétrico auxiliar é ativado mais vezes do que em uma região ensolarada", explica. "A economia é menor no inverno do que no verão. Mas o morador ainda tem vantagem, já que a energia elétrica apenas complementa o aquecimento".

QUALQUER CASA PODE TER AQUECIMENTO SOLAR?
A princípio, sim. Mas, como sempre, o ideal é instalar o sistema durante a construção, afirma o arquiteto Vladimir Arruda, do escritório paulista Arruda e Zeitulian. "Assim, podemos conciliar as especificações técnicas com a estética, prevendo um espaço adequado para a colocação das placas no telhado". Em caso de reformas, principalmente, só um projeto detalhado vai permitir ou não a adoção do sistema. "Aconselho comprar outro aquecedor, a gás ou elétrico, quando não houver condições técnicas para a implantação correta, como telhado voltado para o norte", diz Rodrigo Trindade, da Agencia Energia. "Se o equipamento for mal instalado ou dimensionado, o auxiliar elétrico tem uma participação muito grande".

POSSO AQUECER A PISCINA TAMBÉM?

Sim, mas ela requer placas exclusivas te espaço no telhado para instalá-las e uma bomba que movimente a água (método conhecido como circulação ativa). Os custos são altos. "Aquecer piscina é sempre caro", ressalta Amaurício Gomes Lúcio, diretor da empresa mineira Tuma e da Abrava "Entre os sistemas disponíveis, o solar tem preços competitivos". Exemplificando, um equipamento apropriado a um tanque de 4 x 8 m - que precisa de 32 m2 de telhado para dispor as placas - sai por volta de RS 9.000,00, incluída a colocação.

OS PRÉDIOS ACEITAM O SISTEMA?

Na capital mineira, 600 deles já aderiram a essa tecnologia, segundo a Abrava. E garantindo economia,conforme conta Luiz Antônio dos Santos Pinto, da Transen. Sua empresa instalou o aquecimento solar em um prédio de 34 apartamentos, e cada morador gasta cerca de R$ 60,00 mensais de energia elétrica. Outro edifício com igual tamanho, da mesma construtora, preferiu o aquecimento elétrico - a conta de luz média desses apartamentos é de R$ 180,00.

QUAL O MELHOR EQUIPAMENTO PARA A MINHA CASA?
Definir o número de placas e o tamanho do boiler (além do modelo dos produtos) exige saber quanto sua família gasta de água quente. Os fabricantes calculam que, no Sul e no Sudeste, cada pessoa use diariamente 100 litros em chuveiro, lavatório e cozinha. Nas demais regiões, o consumo fica entre 70 e 80 litros. Se houver banheira É preciso acrescentá-la à conta. O boiler deve comportar a quantidade necessária por dia.

O número de placas depende de vários fatores: a temperatura desejada (só para o banho ou também para a cozinha), o tipo de coletor, a insolação local e o volume a ser aquecido. Daí a importância de um projeto. De modo geral, em Belo Horizonte se adota o padrão de 1 m2 de placa para 100 litros. Em São Paulo e na maior parte do Sudeste e do Sul, a mesma quantidade de água pede 2 m2 de placa. A Abrava promete uma tabela nacional, mas o trabalho está incompleto.

COMO COMPRO?

São muitas as lojas que vendem e instalam aquecedores solares. Atraídas por um mercado com enorme crescimento - de 30% a 50% ao ano - e pela isenção de IPI e de ICMS há todo tipo de empresas na disputa pelo consumidor. Opte pelas associadas à Abrava (veja seção Endereços), que adotam as regras da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) 

"Quinze anos atrás, trocamos o aquecimento elétrico pelo solar. A substituição foi fácil, pois o encanamento estava preparado. Nesse período, não foi preciso nenhuma manutenção além de lavar as placas. Sem contar a enorme economia".

Ione Gomes Magalhães, decoradora de Belo Horizonte, MG

Desde setembro, esses fabricantes são obrigados a ostentar o selo do Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia) em todos os modelos de coletores que comercializem. Mais recentemente o trabalho de etiquetagem atingiu os boilers, que começam a chegar ao mercado com o selo. Há apenas uma ressalva, segundo Luís Augusto Mazzon, da Soletrol: os testes de placas realizados pelo Inmetro consideram o sistema de circulação ativa (com bomba, como usado em piscinas) e não de termossifão, comum em casas. De qualquer modo, ter a placa aprovada é sinal de credibilidade da empresa.

 




O PREÇO
DO CONFORTO

Em 1982 se pagavam US$ 500,00 por m2 de placa instalada. Em 2000, são em média U55 160,00, segundo a Abrava. ARQUITETURA & CONSTRUÇÃO pesquisou produtos (placas, boiler e, em alguns casos/ válvula anticongelamento) e instalação (mão-de-obra e materiais) em empresas filiadas à Abrava e com representantes em vários Estados. 


Os valores fornecidos são estimativas, já que não houve a preocupação de orçar um modelo determinado. Para uma casa com cinco moradores e uma banheira, a maioria dos fabricantes sugere equipamentos de 600 litros, com garantias entre três e dez anos. Conforme a distancia o frete deve ser somado à conta.

Belo Horizonte

São Paulo

Aquasolis**
R$ 2103,00

Enalter
R$ 2080,00

Pantho
R$ 2080,00

Tuma
R$ 1900,00

Cumulus**
R$ 4500,00

Heliotek
R$ 3000,00

Soletrol**
R$ 2980,00

Transen
R$ 2757,00

*0s preços, pesquisados em outubro de 2000, diferem de um lugar para outro, pois São Paulo usa, em geral o dobro de placas que Belo Horizonte.
** Essas empresas sugeriram, inicialmente, equipamentos para outras capacidades. A Aquasolis propôs um sistema de 800 litros por R$ 2663,00. Já a Cumulus adotou um orçamento de R$ 3544,00, referente a 400 litros. A Heliotek contabilizou 500 litros, ao custo de R$ 2500,00.

 

REGRAS PARA ACERTAR NA INSTALAÇÃO

A casa precisa estar preparada para receber o sistema.AlÉm de instalação hidráulica apropriada (tubos de PVC para a água fria e de cobre ou CPVC para a quente), deve atender a alguns posicionamentos e medidas (veja ilustrações). Se a situação não for a ideal, as empresas fornecedoras oferecem soluções.

POSIÇÃO DAS PLACAS

Elas devem estar voltadas para o norte*, com desvio máximo de 30º a nordeste ou noroeste. A inclinação média é de 35º - o cálculo preciso depende da cidade.
* Exceto nos Estados do Amapá, Roraima e Amazonas.

 

 

 

RELAÇÃO ENTRE OS EQUIPAMENTOS

As alturas e distancias (medidas mínimas e máximas) entre caixa-d'água, boiler e placas são obrigatórias ao bom funcionamento do sistema.

 

 

 

 

Extraído da Revista Arquitetura & Construção  - Outubro/200
Reportagem: Araci Queiroz, Carine Reis, Janice Kiss e Renata Andrez
Fotos: Pedro Rubens
Infográficos: Luiz Iria